O cristianismo ocidental, sob influência da
civilização europeia, apesar de ter conquistado sucesso na expansão missionária
e expressão teológica, se acostumou com institucionalização e sectarismo da
igreja. No livreto “União através da comunhão”, Kokichi Kurosaki nos mostra que
no Oriente algo diferente tem acontecido como “resultado da medida de fé que lhe foi revelada pela Palavra de Deus,
através do Espírito Santo” e “fruto
de experiência com outros irmãos em Cristo”, como ele mesmo diz.
Como
no Ocidente, no Japão também existe um “corpo dividido”, devido a tantos missionários
estrangeiros provenientes de diferentes igrejas e grupos – bem como de países –
o que causa assombro e repugnância aos japoneses que tem conhecido a Palavra de
Deus e compreendem que não há como repartir um organismo vivo, ou seja, o Corpo
de Cristo. Estas divisões têm gerado inúmeras denominações e seitas, colocando
em risco uma atuação efetiva da igreja, pois esta perde sua força e deixa de
frutificar por estar baseada em ostentações humanas, além de confundir aqueles
que, embora cristãos, se perdem por não saber qual destas seitas representa
como eficácia o verdadeiro cristianismo já que os EUA enviam cada vez mais
missionários de seitas particulares para a “conversão de novos membros”,
tornando visível um equívoco ainda maior que é a preocupação em converter
pessoas a seu próprio grupo/seita e não a Cristo. Estes fatos revelam que a
raiz de toda essa confusão está nas “ideias
falsas e errôneas quanto à natureza essencial da igreja”, pois cada
instituição ou seita enfatiza suas peculiaridades como sendo os elementos
essenciais da fé cristã, condenando outras que divergem destes elementos.
Então, vemos um caminho interminável para as divisões do “corpo” que só poderá
ser interrompido se redescobrirmos qual é o verdadeiro centro do cristianismo e
aprendermos o que Deus colocou como centro do nosso relacionamento com Ele para
que possamos torná-lo o centro de nossa fé.
Através
da história, podemos compreender como a centralidade do cristianismo foi se
alterando. Para isso, podemos comparar as seguintes fases:
·
A IDADE APOSTÓLICA: caracterizada pela atuação
dos discípulos diretos de Cristo que tinham como centro de sua fé a comunhão
com o próprio Cristo e, consequentemente após sua ressurreição, a busca pela
permanência desta comunhão através da atuação do Espírito Santo, que tinha como
fruto a comunhão com outros que também desejavam a mesma comunhão pessoal com
Cristo. Em resumo, o centro da vida de fé para os discípulos diretos de Jesus
era o próprio Jesus através de sua comunhão espiritual com Ele. E o testemunho
desta comunhão atraia outros que se convertiam à fé em Cristo. Nunca se pensou,
durante este período, em fazer da organização institucional o centro da igreja,
mas em manter a comunhão e atuação do Espírito Santo como principal atividade
de forma a garantir a permanência da centralidade na comunhão pessoal com
Cristo.
·
O PERÍODO CATÓLICO: após a instituição do
cristianismo como religião oficial pelo imperador Constantino, cessam as
perseguições sanguinárias dos imperadores romanos aos cristãos e o cristianismo
se espalha rapidamente por todo o território romano, desenvolvendo assim a
“igreja” como organização institucional centralizada tendo como “Pai” de toda a
igreja um bispo romano e tornando todo cidadão romano como cristão pela lei
territorial e não mais pela atuação do Espírito Santo. A fé fica reduzida a um
credo formulado para ser lembrado por todos os membros comuns da igreja e os
que não professavam tal credo eram considerados hereges e, consequentemente,
eram punidos. Fica então o centro do cristianismo voltado para o governo legal
do Papa e não mais para a comunhão pessoal com Cristo, já que o Papa torna-se
“representante legal do Reino de Deus na Terra” e todos os seres humanos comuns ficam privados do direito de
livremente buscar a verdade e a fé verdadeira já que estavam sob o jugo de
sacramentos e rituais que deveriam ser cumpridos para que a salvação fosse
garantida e “dada” pelo então Papa atuante. E, como a maioria dos cidadãos era
analfabeta, o medo da punição dada pela instituição “igreja” tornava-os reféns
de uma fé dogmática e totalmente devota ao Papa e suas leis.
·
O PERÍODO PROTESTANTE: com a Reforma, Martinho
Lutero e João Calvino estabeleceram novas igrejas separadas do domínio da
igreja romana por toda a Europa. Estes reformadores tiveram como centro de sua
fé a busca pela comunhão direta com Cristo tendo a Bíblia como única fonte
verdadeira e essencial para isso – onde é dado um passo importante para o
retorno à fé primitiva - contrariando todo o império da igreja romana. No
entanto, assim como no catolicismo, foi no necessário fazer uma separação dos
considerados hereges para que esta “nova” igreja fosse purificada, sendo pouca
a diferença entre protestantes e católicos em sua insistência de fazer esta
distinção entre verdadeiros “cristãos” e hereges. Assim, com o estabelecimento
de novos documentos, protestantes também formularam seus próprios credos onde
se vê clara a expressão de falta de compreensão das limitações destes em
relação à fé genuína e, consequentemente, ocasiona-se novas divisões do
cristianismo em seitas e denominações por divergências de interpretação de
alguns textos bíblicos.
Diante das divisões geradas ao
longo da história, alguns pontos fundamentais foram considerados “causa”, como
a teologia, a inspiração e interpretação das Escrituras e rituais e cerimônias. Entretanto, é importante ressaltar que,
embora as divisões ocorressem por pontos de discordância, o motivo maior sempre
foi a ausência de foco na centralidade de Cristo e a comunhão com Ele. À medida
que um grupo se levantava com suas divergências, se opunha a outros grupos e fechava-se
em seu próprio círculo de comunhão. Assim, a igreja protestante tornou-se tão
dividida que, aparentemente, parece impossível sua unificação. E a pergunta que
resta é: por que não se retoma a unidade da igreja ao invés de apenas ficar
rebatendo as crenças de outros grupos? Por que não se arrepender do pecado que
gerou tantas divisões? Tais respostas não parecem tão simples, mas suas
soluções não são impossíveis. Ou estaria Cristo satisfeito com a divisão de seu
próprio corpo?
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